Catadores perdem até 2 dias por mês separando plásticos sem valor de reciclagem, aponta estudo

Um novo estudo divulgado pelo Instituto de Direito Coletivo em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF) acendeu um alerta importante sobre os impactos do descarte incorreto de plásticos no Brasil. A pesquisa revelou que catadores de materiais recicláveis chegam a perder até dois dias de trabalho por mês separando plásticos que não possuem valor comercial para reciclagem.

O levantamento analisou 26 cooperativas e mostrou um cenário preocupante: embora o plástico represente cerca de 30% de todo o material recebido pelas cooperativas, ele corresponde a impressionantes 45% dos resíduos descartados — ou seja, materiais que acabam sem reaproveitamento.

O problema vai além da reciclagem

Segundo Tatiana Bastos, presidente do Instituto de Direito Coletivo, muitos desses plásticos até poderiam ser reciclados tecnicamente, mas acabam não sendo aproveitados por falta de viabilidade econômica.

Entre os principais desafios estão:

  • Falta de mercado comprador para determinados tipos de plástico;
  • Alto custo do reaproveitamento;
  • Distância entre cooperativas e indústrias recicladoras;
  • Necessidade de grandes volumes para compensar o transporte;
  • Baixo valor agregado de alguns materiais.

Na prática, isso significa mais tempo perdido para os catadores e menos renda no fim do mês.

Tempo perdido e prejuízo financeiro

O estudo estima que cada catador perde cerca de 15 horas por mês — equivalente a aproximadamente dois dias de trabalho — separando materiais que não serão vendidos.

Além do impacto operacional, o prejuízo financeiro também é significativo. Em 17 cooperativas analisadas, as perdas mensais variaram entre R$ 1.179 e R$ 3.771 por unidade.

Para milhares de famílias que dependem da reciclagem como fonte de renda, esse desperdício representa um impacto direto na sobrevivência.

Quais plásticos realmente possuem valor?

De acordo com cooperativas entrevistadas na pesquisa, materiais como:

  • Garrafas PET;
  • Galões de água;
  • Embalagens de produtos de limpeza;
  • Baldes;
  • Alguns brinquedos plásticos;

ainda possuem boa aceitação pela indústria recicladora.

Por outro lado, embalagens muito finas, plásticos misturados, laminados metalizados e materiais de difícil separação continuam sendo um grande desafio para o setor.

A responsabilidade também é da indústria

A Política Nacional de Resíduos Sólidos determina que empresas e fabricantes sejam responsáveis pela chamada logística reversa, criando mecanismos para que embalagens retornem corretamente ao ciclo produtivo após o consumo.

Especialistas defendem que embalagens sem reciclabilidade comprovada não deveriam sequer chegar ao mercado sem um plano adequado de destinação.

A falta de fiscalização e de investimentos em soluções sustentáveis acaba transferindo o problema para cooperativas e catadores, que ficam responsáveis por lidar com materiais praticamente impossíveis de reciclar.

O papel fundamental dos catadores

Catadores e cooperativas exercem uma função essencial para a sustentabilidade das cidades brasileiras. Além de reduzirem o volume de resíduos enviados aos aterros sanitários, são responsáveis por movimentar a economia circular e gerar impacto ambiental positivo diariamente.

Mesmo diante das dificuldades, milhares de trabalhadores seguem sustentando o sistema de reciclagem no país.

Como a população pode ajudar?

Pequenas atitudes fazem diferença:

  • Separar corretamente os recicláveis;
  • Lavar embalagens antes do descarte;
  • Evitar misturar lixo orgânico com recicláveis;
  • Priorizar produtos com embalagens recicláveis;
  • Apoiar cooperativas e iniciativas de reciclagem.

A reciclagem só funciona de forma eficiente quando toda a cadeia — consumidores, empresas e poder público — participa da responsabilidade.

Fonte: reportagem publicada pelo G1 em 21/05/2026.

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *